No momento em que há a indicação de algum tipo de tratamento oncológico surgem inúmeras dúvidas e medos:

  • Será que vou ficar curada?
  • Será que meu organismo vai aguentar o tratamento?
  • Como vai ser minha vida durante esse período?

Trago aqui o relato de uma paciente muito querida sobre essa fase da vida pela qual muitas mulheres passarão.

O diagnóstico

“Gurias, fiquem quietas!!!! Me, mim, comigo, comportem-se!!! Como posso escrever com esta algazarra?
Sim, sim! Vou passar a boa notícia para todos.
Ufa!! Difícil controlar a euforia delas.
Amigos e amigas queridas, finalmente, meu tratamento oncológico chegou ao fim!!! Nem eu estou acreditando!!
Depois de 9 meses, nasceu o Fim.
Não foi fácil, mas chegamos ao término. Agora é dar tempo ao tempo e muita fé em Deus.
9 meses!!!! Tudo começou em outubro 2019. 40 dias sangrando, até o dia 22 de novembro (dia de Santa Cecilia), quando o Dr. Henrique (o meu doutor Fofo) retirou o que não devia estar em meu corpinho: tumor maligno, que também atende pelo nome de câncer. Que nome cientifico?!?! Me, mim, comigo, isto não nos interessa! O importante é que Dr. Fofo tirou tudo: útero, ovários, trompas, linfonodos, trompetes, piano, violinos…. resumindo: a orquestra inteira!! ”

A quimioterapia

“E aí entra em cena a Dra. Adriana, a minha Dra Fofa. Ela cuidou com muito carinho deste quarteto rebelde. Vocês nos conhecem: somos teimosas (neste quesito, eu, me, mim e comigo, somos iguais). A segunda parte do tratamento oncológico foi a quimioterapia e cada 21 dias a Dra Fofa analisava os exames solicitados e nos encaminhava para a aplicação. Foram 6 sessões enfrentadas com dores no corpo e muito cansaço.”

A radioterapia

“Após esta segunda etapa, partimos para a terceira: a radioterapia. Foram 25 externas, diárias (menos fim-de-semanas) e 4 internas ( uma vez por semana no ultimo mês). Eu, me, mim e comigo conseguimos superar o constrangimento (não foi agradável ficar meia hora em posição de “frango assado” para aplicação da radio interna), o intestino hiper ativo, o que nos deixava para lá de receosas de sair de casa, pois o dito cujo não respeitava hora nem lugar para dar o “ar” de sua impertinência!!! Eu tive que consolar e pedir muita paciência as minhas 3 companheiras. A pior foi a comigo, que só dizia: por que isto tem que acontecer comigo?! Até me e mim me ajudaram a fazê- la entender que era um efeito colateral do tratamento oncológico.”

Dieta

“E a dieta?!?!?! Pão francês, macarrão, batata, aipim e arroz. Bolacha água e sal. Cottage cheese e geléia de damasco (o único alimento doce). Carne e frango. Tomate sem casca e sem sementes. Banana, melão, maçã, pêra, caqui. Ah, sim! A nutricionista avisou que eu não podia comer a casca das frutas. Foi muito decepcionante não poder uma casca de banana e tampouco a do melão!!!! Sei, sei. Estou ouvindo vocês comentarem: esta dieta foi “piece of cake”. Ok! Experimentem ficar 50 dias com esta “baita” dieta!!! Não posso mais ver cottage cheese, geleia de damasco, bolacha agua e sal..
Para vocês terem um idéia, quando a nutricionista liberou o bolo de laranja, foi uma alegria só: não há bolo melhor no mundo!!! Que saudades dos tabletes de chocolate, do brigadeiro, da mousse!!!!!!!”

Percalços

“E os percalços do meio do caminho?!?!
Um baita tombo na rua, quando um dente tentou fugir pela calçada (foi conduzido ao seu devido lugar à força) e dois que se deram mal na tentativa de fuga: quebraram.
Imunidade baixa, bem na véspera da última quimioterapia!!! Foi necessário tomar uma injeção que acentuou os efeitos da quimio. Um pesadelo, que espero não ter que repetir. Vocês tinham que ouvir me, mim, comigo resmungando. Conseguiram me deixar tão estressada que mal comi (e não estava de dieta! ). Euzinha, nem chocolate quis comer. Impensável, vocês não acham?
Colocaram um cateter no meu peito. Não sei quanto tempo vai ficar. É uma pequena protuberância que me lembra a formação de uma imensa espinha!!! Mais uma cicatriz. Não me incomoda, pois é apenas mais uma, já que o Dr. Fofo deixou umas 5 na minha barriga/estômago, que se juntaram às 4 já existentes (decorrentes da cirurgia bariátrica). Agora, quando colocar um biquíni (ok! Duas peças. Gurias chatas! Me, mim, comigo!! Parem de rir!) vou parecer um travesseiro matelassê !!!!
Covid??? Sem comentários. Meu isolamento começou em dezembro. Íamos ficar em casa de qualquer maneira. Mas não vejo a hora de acabar e poder dar um abraço em cada um de vocês. E o cabelo?!?!?! Fiquei careca, sem sobrancelhas e sem cílios. Parecia um ovo caricato!!! Já tenho sobrancelhas pretas e cílios curtos. O cabelo está com 1cm. O problema que esta nascendo castanho escuro (meu sonho sempre foi ter cabelo branco, como uma nuvem branca no céu azul. Ai!!!! Que poesia barata!!!!). Pelo menos serei uma morena de olhos verdes e não mais a “loura burra”.”

O fim

“Hoje este período de minha vida faz parte do passado. Mas, não vou esquecer nunca vocês, meus amigos e amigas queridos. Sem vocês não sei se teria suportado. Não vou citar nomes com receio de cometer alguma injustiça, mas, todos vocês foram muitooooo importantes para mim.
Vou pedir licença para citar uma pessoa, que mesmo sem me conhecer, me ajudou. Paulo, irmão da Martinha. Ele me presenteou com um terço lindo, adquirido na capela da N. Sra. da Medalha Milagrosa, onde tb foi bento. O terço, azul como a capela da imagem de N. Sra. na Rue du Bac, me foi dado com tanto carinho e fé, que me deu força, esperança e muita fé. Esteve sempre comigo, em meu pescoço, e assim, sentia o amor e a proteção de N.Sra.”

Agradecimentos

“Recebi alta hoje. Vou sentir saudade da turma da radioterapia. Todos muito queridos. Acreditem, a moça do estacionamento me presenteou com um sabonete. Não é fofo demais?
A guria da recepção me deu um chocolate. Muito carinho na enfermagem e na sala de radioterapia. Só não deu para abraços, mas muitos acenos e alegria. Todos dizendo que vão sentir saudades do meu “Oie” de bom dia, da minha alegria, do meu sorriso camuflado pela máscara.
Desde o inicio do tratamento oncológico, sempre tentei passar para os demais pacientes a fé na recuperação. Esta certeza é que nos ajuda a enfrentar os efeitos colaterais.
O doutor que me deu alta, liberou a alimentação, porém, prestando atenção à resposta do meu organismo. Me, pára de ficar se gabando!!! Eu, mim e comigo, não chorem. A liberação foi para todas nós. Crianças mimadas!!!!
Com o coração e alma cheios de alegria, fé, esperança e agradecimento a todos vocês, me despeço pedindo a Deus que abençoe a todos vocês e suas famílias.
Vou virar a página e começar um novo capítulo em minha vida.
Milhões de obrigadas.”
C.M
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“Me, mim, comigo!!! Parem de gritar!! Claro que também agradeço vocês. Às vezes vocês podem ser bem “chatinhas”, mas, fazem parte de minha vida. Não troco voces.
Ok!!! Calminha!!! O médico autorizou fazer um brigadeiro. Mas , ATENÇÃO: só duas colheres para cada uma!! Hehehehehehe…”